quinta-feira, 5 de outubro de 2017

A MÍSTICA E A ESPIRITUALIDADE DA PASTORAL DA JUVENTUDE


A MÍSTICA E A ESPIRITUALIDADE DA PASTORAL DA JUVENTUDE


“Uma Igreja que não confere centralidade aos pobres e não assume a causa da justiça dos pobres não está na herança de Jesus”. Leonardo Boff – Teólogo.

Na América Latina e no Caribe, no Brasil, precisamente, o compromisso com as causas do Reino, nas causas do Povo, fizeram da Pastoral da Juventude, um ponto de encontro para as discussões sócio-políticas, econômicas e religiosas que não podem ser vividas, entendidas e interpretadas separadamente: eis o longo Caminho de Emaús a ser percorrido!
Falar de Mística e Espiritualidade, nos dias atuais, dias de muita violência, pode representar e significar FUGA! E está significando fuga. Está significando: uma falta de compromisso com a realidade a qual estamos inseridos.
Falaremos aqui, da Mística e da Espiritualidade da Pastoral da Juventude, portanto, uma mística e uma espiritualidade pé no chão, cristã, católica e da Libertação.
É encontrar em nós e na comunidade o Mistério que nos faz viver com os pés no chão, mesmo quando voamos alto em nossos sonhos e utopias, atentos aos apelos, aos clamores de nossa gente simples, espoliada, excluída, marginalizada.
Tenho dito nas assessorias que presto aos grupos de base que:
Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a História e a Utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa.
Espiritualidade é aquilo que faz no ser humano uma transformação. O nosso modo de entender o que há de transcendente à nossa volta.
Entendo por transcendente, aquilo que vai além dos limites da experiência, o que nos ultrapassa. Assim dizemos que Deus e as realidades espirituais são transcendentes.
Mística e Espiritualidade não são terrenos onde só andam os que possuem algum tipo de religião. Religiosos ou ateus, todos possuem seus critérios de interpretar os fatos, de enxergar o invisível em tudo o que lhes chega ao conhecimento. As pessoas são diferentes, mas todas têm uma mística e uma espiritualidade.
Nestes anos todos de diakonia e koinonia à Pastoral da Juventude e principalmente ao Reino, entendo que o único espaço de revelação do transcendente que nos é concedido nesta Vida passa exatamente pelas realidades mundanas nas quais existimos, e por elas optamos, sofremos e nos alegramos. Nossos sonhos, nossos valores fazem parte da nossa mística e da nossa espiritualidade porque eles modificam o filtro através do qual enxergamos e interpretamos o mundo. Eles modelam a qualidade da nossa mística e espiritualidade e principalmente do nosso agir enquanto seres humanos.
Necessitamos do mistério, necessitamos do invisível.
A palavra mística tem a sua raiz na palavra MISTÉRIO = O QUE ESTÁ VELADO, OCULTO. Este mistério, para nós da Pastoral da Juventude, é o Mistério Pascal do Moreno de Nazaré, Vivo-Crucificado-Ressuscitado; é a partir dele que a nossa mística acontece, e em nenhuma outra.
Assim também nossa espiritualidade. A palavra espiritualidade tem sua raiz na palavra ESPÍRITO = SOPRO, HÁLITO DE VIDA. É o Espírito Santo de Deus que nos faz caminhar em direção aos jovens, aos pobres, ao Povo, nas causas do Reino, inclusive no martírio.
Nossa mística e espiritualidade busca mais o sentido da Vida!
Se encaramos, se assumimos que somos apenas seres humanos, por isso mesmo, imperfeitos, devemos deixar Deus ser Deus, e daí nossa felicidade será intensa, completa.
Estamos vivendo uma crise da pós-modernidade: guerras, corrupção, violência, aumento do consumo de drogas, AIDS. Neste contexto, o retorno do sagrado é muito forte e desordenado.
Desordenado, pois vários deuses aparecem como se fossem águas represadas. E aparecem aos montes e para todos os gostos. Deuses, no plural, costuma a se equivaler a ÍDOLOS. Aqui na América Latina e no Caribe, o problema não é a falta de Deus, mas o excesso de deuses. Nós temos deuses para tudo quando é lado.
Então qual é o Deus verdadeiro?
Deus verdadeiro é o Deus desconhecido que Paulo falava!
Deuses conhecidos são feitos para satisfazer nossa imagem e semelhança, são deuses do escambo, são deuses do lucro.
Quando se conhece muito Deus, é que deixou de ser Deus, passou a ser um produto em nossas mãos.
O Deus verdadeiro é sempre desconhecido!
O Deus desconhecido se descobre no INFERNO: no inferno do sofrimento humano! No momento em que já quase não existe a dignidade humana, onde toda fiel esperança quase desaparece.
Se a mística e a espiritualidade não levam à liberdade, não é mística e espiritualidade.
Se não faz com que o ser humano possa caminhar, não tem sentido acreditar em sua existência.
O Moreno de Nazaré desce ao inferno do sofrimento humano para caminhar e abraçar o Deus Verdadeiro!
Não há outra forma de chegar a Deus se não for pelo sofrimento humano, não tem jeito. Fazer um deus segundo a própria vontade, somente irá justificar toda pequenez e egoísmo que há dentro de cada um.
Acreditar nos passos que podem e devem ser dados, um de cada vez, viver intensamente cada um desses passos é o primeiro caminho para se viver a mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude.
É preciso voltar às fontes primordiais de nossa fé, de nossa vida.
Melhor do que receber o copo d’água é ir a fonte!
A fonte de toda atividade profética da Pastoral da Juventude é o Moreno de Nazaré!
Deve-se tentar segui-lo na medida do possível; seus passos devem ser passos dados no cotidiano; é tentar cumprir o mandamento novo: amar a Deus como elemento fundante de uma mística e espiritualidade que brota do chão de nossos dias, que germina de nossa realidade dura e sofrida.
Os bispos diziam em Puebla (1979): “a opção preferencial pelos jovens é a mais notável tendência da vida religiosa latino-americana” , e é a mais notável tendência da vida da juventude que se coloca à disposição do Reino neste Continente da Esperança.
Jovens comprometidos com a realidade na qual se está inserido se tornam referenciais para toda a comunidade, para toda a Igreja e para toda a sociedade. Ao se afastarem de suas bases por conta de compromissos assumidos na estrutura eclesial, o elo se que quebra, se isso acontece com frequência, algo está errado na caminhada.
Um grupo de base da Pastoral da Juventude sempre reza, sempre ora, mas não esquece que toda discussão, parte de dentro para fora da Igreja, não há portas fechadas, não há línguas estranhas, nem anjos subindo ou descendo, pois se fala o que a juventude entende e compreende, não pode haver panelinhas, nem falsidades, deve prevalecer sempre: o respeito, a amizade, o diálogo e o perdão.
A mística e a espiritualidade nasce do sangue derramado pelos mártires da caminhada latino-americana e principalmente do sangue do primeiro mártir: o mártir Jesus!
A mística e a espiritualidade da Pastoral da Juventude não é para gente frouxa,não é para gente covarde; é mística e espiritualidade cristã que tem sua centralidade num ser humano, judeu, do século I E.C., um habitante das regiões do Oriente Médio, queimado de sol, agricultor, carpinteiro, contador de histórias, desde o nascimento: pobre (como a maioria dos pobres que encontramos nas ruas de nossas cidades todos os dias mas que não se dá a devida atenção).
Toda mística e espiritualidade da Pastoral da Juventude nasce de uma profunda vivência orante bíblico-litúrgica.
Como é prazeroso para um grupo de base poder degustar e refletir a Palavra de Deus a partir da realidade em que vive, usando inclusive, o método da Leitura Orante da Bíblia.
Iniciando a reunião, o encontro de irmãos, rezando o Ofício Divino: das comunidades, da juventude, dos mártires da caminhada...
Se colocando na frente de Deus, disposto a escutá-lo e saber o que Ele pede.
Todo grupo de base da Pastoral da Juventude inicia seu caminho místico, seu itinerário espiritual, a partir da Sagrada Escritura, da Sagrada Liturgia, inculturadas e encarnadas no cotidiano.
Deve construir suas experiências, escutando o que Deus fala hoje, agora mesmo.
Orar é escutar o que Deus tem a nos falar!
Orar é silenciar, mesmo no turbilhão barulhento de nossos dias!
Orar é auscultar o que a natureza-criação expressa cotidianamente!
Orar é agradecer-pedir quando todos os sentidos de nosso corpo embebedarem-se do sopro de Deus: RUAH – VIDA!
Quem está com sede quer água!
Mas beber em qual poço? Com qual vasilha? Com qual balde?
Como se está buscando esta fonte, aqui no grupo, na comunidade, na Igreja, no Brasil, na América Latina e no Caribe?
Que fonte é esta que me faz caminhar no deserto? Que deserto é este?
Que fonte é esta que me faz refletir sobre mística e espiritualidade?
Que fonte é esta que me faz praticar?
A fonte, a água, o poço: há um mistério que envolve todo o processo de procura e encontro, há algo que transcende.
A fonte Jesus é transcendente mas não está longe! Está aqui e agora. Está nas realidades mundanas nas quais existimos.
Beber em seu próprio poço: descobrir o caminho que leva de volta às alegrias-tristezas, conquistas-decepções...aquilo que busca o sentido da Vida!
Qual o sentido da tua vida?
Você faz parte da herança de Jesus de Nazaré?
Sim ou sim?


Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade de São Paulo


Arte-Vida: Ateliê 15

terça-feira, 16 de maio de 2017

LEITURA POPULAR DA BÍBLIA

LEITURA POPULAR DA BÍBLIA
Frei Carlos Mesters, O. Carm.*


I – Critérios de leitura da Bíblia

1.        Existe uma leitura da Bíblia feita pelos pobres deste Continente nas suas Comunidades Eclesiais de Base. A leitura dos pobres, apesar das diferenças próprias de cada povo, tem algumas características comuns a todos:

a.      Os pobres levam consigo para dentro da Bíblia os problemas da sua vida; leem a Bíblia a partir da sua realidade e da sua luta.
b.      A leitura é feita em comunidade; ela é antes de tudo, um ato de fé, uma prática orante, uma atividade comunitária.
c.       Eles fazem uma leitura obediente; respeitam o texto, pois se colocam à escuta do que Deus tem a dizer, dispostos a mudar se Ele o exigir.

2.      Esta prática tão simples dos pobres é fundamentalmente fiel à prática da mais antiga Tradição da Igreja. Por isso mesmo, ela nos oferece os princípios ou critérios que devem orientar a leitura e o estudo que vamos fazer da Bíblia, e nos aponta o objetivo que esta leitura quer alcançar na nossa vida.
3.       O objetivo: escutar Deus hoje. FÉ COMUNIDADE + POVO REALIDADE + TEXTO BÍBLIA.
4.      Quando articulados entre si, estes três critérios geram um tipo de leitura bíblica, cujas características são as seguintes:

II – Características da leitura cristã da Bíblia

1.       Leitura que parte da REALIDADE

a.      A certeza maior que a Bíblia nos comunica é esta: Deus escuta o clamor do seu povo oprimido. Ele está presente na vida e na história deste povo para libertar. Por isso, como o povo e como Jesus, devemos levar para dentro da Bíblia a realidade conflitiva em que vivemos e que faz o povo gritar de dor. A situação do povo deve estar sempre presente durante a leitura da Bíblia. Antes de recorrer à Bíblia, Jesus quis conhecer a situação dos dois discípulos de Emaús: De que estão falando? Por que estão tristes?
b.      Por isso mesmo, também no estudo da Bíblia, a primeira preocupação deve ser: descobrir, através de uma leitura atenta do texto, a realidade concreta e conflitiva do povo que gerou o texto e em vista da qual ele foi formulado.
c.       Na maneira de estudar a situação do tempo da Bíblia, convém utilizar os mesmos critérios de análise que usamos para estudar a situação econômica, social, política e religiosa do povo de hoje. Isto permite realizar o confronto entre a problemática de hoje e de ontem, de que falava o Papa Paulo VI no seu discurso aos exegetas italianos.

2.      Leitura feita em COMUNIDADE

a.      A Bíblia é o livro do povo, da comunidade, da Igreja. Por isso, o lugar da sua leitura é a comunidade. A norma da sua interpretação é a fé da comunidade, da Igreja. Mesmo fazendo leitura individual, estou lendo o livro da comunidade, da Igreja. O sentido que se procura é um sentido comunitário, que eu, como indivíduo, devo assumir por ser membro da comunidade. Interpretar é, antes de tudo, uma tarefa comunitária, em que todos participam. Não é tarefa de um único fulano que estudou mais do que os outros. O estudioso, o exegeta, participa com sua parte e se coloca a serviço, como todo mundo.
b.      A descoberta do sentido que a Bíblia tem para nós não é fruto só do estudo, mas também da ação do Espírito Santo. Isto exige que se crie um ambiente de participação, de fé, de oração e de celebração, que dê espaço à ação do Espírito Santo, o mesmo Espírito que está na origem da Bíblia e que, conforme a promessa de Jesus, nos vai revelar o sentido das suas palavras. A oração cria o espaço necessário para a escuta do apelo do Espírito Santo.
c.       A leitura e a interpretação da Bíblia não podem ser atividades separadas do resto da vida da comunidade, mas envolvem, animam e dinamizam todas as atividades e lutas dos membros da comunidade. Isto terá o seu reflexo sobre o método e as dinâmicas que se adotam.
d.      No estudo do texto, devemos ter a preocupação não só em descobrir qual era a realidade do povo daquele tempo, mas também como o texto expressava a fé da comunidade daquele tempo e como ele respondia àquela situação concreta e conflitiva em que o povo se encontrava.

3.      Leitura que respeita o TEXTO

a.      A leitura da Bíblia é um aspecto do diálogo nosso com Deus. A primeira exigência do diálogo é saber escutar o outro e não reduzi-lo ao tamanho daquilo que eu quero que ele seja. A escuta exige que se faça silêncio em nós, que desarmemos os preconceitos, para que o outro se possa revelar como ele é. A atitude de escuta faz o texto falar na sua alteridade como palavra humana que nos transmite a Palavra de Deus.
b.      O texto é como o povo pobre: não consegue defender-se contra as agressões que o opressor e o manipulador lhe faz. É facilmente vencido, mas dificilmente convencido. Sabe resistir. De certo modo, a necessidade de respeitar e escutar o texto é um lado da medalha. O outro lado é respeitar e escutar o povo.
c.       Isto exige que se situe o texto no seu contexto de origem. A leitura e o estudo do texto devem, por assim dizer, reproduzir o texto, recriá-lo, para que possa aparecer o seu sentido bem concreto dentro da situação do povo daquele tempo como resposta de orientação ou de crítica ao povo.
d.      Isto exige que se levem em conta os resultados da exegese científica. Para a descoberta do sentido do texto é muito importante que o estudo nos leve a conhecer a situação econômica, social, política e ideológica do povo daquele tempo.
e.      Uma leitura que respeita o texto deve tomar todas as precauções possíveis para não utilizar ou manipular o texto, (nem para conservar e nem para transformar) e, assim, não projetar as nossas próprias ideias e desejos dentro do texto.

4.      Leitura que liga FÉ E VIDA

Articulando entre si os três critérios vindos do povo pobre, a leitura bíblica que daí resulta desloca o eixo da interpretação e retoma algumas características básicas da mais antiga tradição do povo de Deus:
a.      A preocupação principal já não é o descobrir o sentido que a Bíblia tinha no passado, mas sim o sentido que o Espírito comunica hoje à sua Igreja por meio do texto bíblico. Este tipo de leitura era chamada Lectio Divina. Ela procura descobrir o Sensus Spiritualis. É a leitura de fé que procura, com a ajuda da Bíblia, descobrir a ação da Palavra de Deus na vida.
b.      A Bíblia é lida não só como livro que descreve a história do passado, mas também como espelho (sim-bolo) da história que acontece hoje na vida das pessoas, das comunidades, dos povos da América Latina. É o que os antigos chamavam o sentido simbólico. A busca deste sentido exprime a convicção de fé de que Deus continua falando a nós pelos fatos da vida.
c.       A preocupação principal já não é interpretar o texto, mas sim interpretar a vida, a história nossa, por meio do texto. Deslocou-se o eixo do texto para a vida. É o que Santo Agostinho descreveu na comparação dos Dois Livros. A Bíblia, o Segundo Livro, nos ajuda a interpretar a vida, o Primeiro Livro.



5.      Leitura em DEFESA DA VIDA

a.      O que temos de mais ecumênica e universal é a vida e a vontade de ter vida em abundância. Esta vontade de viver como gente e de ter vida mais justa e mais abundante existe sobretudo entre os pobres e oprimidos. O povo pobre é ecumênico quando lê a Bíblia. A leitura que faz é em defesa da vida ameaçada e reprimida. A própria Bíblia confirma a exatidão desta atitude ecumênica. No princípio, Deus criou a vida para ser vida abençoada. Chamou Abraão, para que o povo de Abraão recuperasse para todos a bênção da vida perdida por causa do pecado. A Bíblia surgiu e existe para iluminar a vida e defendê-la, para que seja vivida em abundância.
b.      Na situação em que vive o povo na América Latina, uma tal leitura a serviço da vida, necessariamente deve ser libertadora. Pois, a vida do povo está sendo ameaçada pelas forças da morte, explorada iniquamente. Já não é vida em abundância, não tem condições de ser vida de gente. A leitura é ecumênica quando anima o povo a se organizar para defender a vida, para lutar contra as forças da morte, para libertar-se de tudo o que o oprime.
Uma tal leitura realiza aquilo que dizia Santo Agostinho: transforma a realidade e a vida para que se torne novamente uma teofania, uma revelação de Deus.

6.     LEITURA COMPROMETIDA

Este tipo de leitura da Bíblia, quando conduzida com fidelidade, vai abrindo, aos poucos, os nossos olhos sobre a realidade e nos levará a uma opção pelos pobres e a um compromisso mais firme com a sua causa.
a.      Aos poucos a leitura começa a ser feita a partir de um outro lugar social, não mais a partir do lugar dos sábios e entendidos, mas a partir do lugar dos pequenos. Sim, Pai, eu te agradeço, porque assim foi do teu agrado.
b.      A leitura é feita não só para conhecer melhor o sentido da Bíblia, mas também e sobretudo para praticá-la. Não só ouve a palavra, mas a coloca em prática. A informação obtida pelo estudo é em vista da prática transformadora, para que novamente, a face de Deus seja revelada.
c.       Uma tal leitura comprometida com os pobres, quando feita em comunidade, aos poucos começa a assumir uma dimensão política, pois tem a ver com a conversão não só pessoal, mas também comunitária e social.

7.      LEITURA FIEL

Resumindo tudo, este tipo de leitura nada mais pretende do que ser fiel ao objetivo da própria Bíblia.
a.      O objetivo da Bíblia é um só: ajudar o povo a descobrir que Deus chegou perto para escutar o clamor dos pobres e caminhar com eles, o mesmo Deus que outrora caminhou com o povo de Israel, e a experimentar hoje a presença de Deus, Javé, Emanuel, Deus conosco, Deus Libertador. A leitura da Bíblia deve ser fiel ao objetivo da Palavra de Deus.
b.      A chave principal da Bíblia é Jesus, morto e ressuscitado, vivo no meio da comunidade. A leitura da Bíblia tem como objetivo: ajudar o povo a descobrir a grandeza do poder com que Deus acompanha e liberta o seu povo, a saber, o mesmo poder que Ele usou para tirar Jesus da morte. É o que São Paulo pedia para a comunidade de Éfeso. Fizemos esta enumeração longa e detalhada das características da leitura cristã da Bíblia para, por meio delas, oferecer um quadro permanente de referências. De vez em quando, é bom fazer uma revisão da nossa prática e do tipo de leitura que estamos fazendo da Bíblia. Aí, estas sete características podem servir como critério de avaliação e de revisão.


PERGUNTAS PARA REFLEXÃO PESSOAL E EM GRUPOS:

1) O que nos chama a atenção neste artigo?
2) O que é e como se faz a Leitura Popular da Bíblia?
3) Porque a leitura da Bíblia é um aspecto do diálogo nosso com Deus?








* Texto retirado do livro O povo faz caminho – uma leitura latino-americana da Bíblia. 1988, p. 7-11.
[1] Arte-Vida de Luís Henrique.

TENTANDO "DEFINIR" A NATUREZA DA LITURGIA

TENTANDO “DEFINIR” A NATUREZA DA LITURGIA
Frei José Ariovaldo da Silva




           Partamos da própria palavra liturgia. É uma palavra de origem grega (leitourgía; verbo: leitourgein; substantivo pessoal: leitourgós), incorporada em nossa língua portuguesa. Ela provém da composição de laós [jônico; leós; ático] (= povo) e de érgon (= obra/serviço/ação). Traduzido literalmente, leitourgía significa serviço feito para o povo, ou, serviço diretamente prestado para o bem comum. Por exemplo, alguém participa de um mutirão... Os gregos diriam: Está fazendo uma liturgia. Alguém, ou um grupo, põe-se a construir uma ponte ou a organizar uma festa... Os gregos diriam: Está fazendo liturgia. Um sacerdote põe-se a prestar um serviço no templo... Está fazendo liturgia[1]. Por que? Porque são obras, serviços, ações em favor do povo, em favor das pessoas, em favor da comunidade humana, em favor da vida humana.
            Ora, nesta linha de pensamento, me vem a esta altura uma pergunta pertinente que, a meu ver, nos conduz a reflexões posteriores muito interessantes. A pergunta é esta: quem realizou e continua a realizar as maiores ações em favor da comunidade humana? Ou, para sermos fiéis a terminologia grega, quem realiza as melhores liturgias? A experiência religiosa nos mostra que é Deus. Todo o Antigo Testamento é um grande canto e uma imensa narrativa das ações do senhor em favor do povo eleito. A grande experiência religiosa do povo eleito foi precisamente a de ter pouco a pouco descoberto – foi-lhe sendo revelado! – Deus como Aquele que, através de fatos, acontecimentos, pessoas, profetas, sábios etc., age na História em favor do seu povo (= faz liturgia!) e o salva. A experiência do êxodo é típica e paradigmática. Deus foi sendo descoberto sempre mais intensamente, sobretudo pelos sábios e profetas, como Aquele que, fielmente e com eterna misericórdia (Sl 135), opera a salvação do povo. Um Deus libertador, solidário, misericordioso, fiel, um Deus perdão, um Deus que ama a vida do seu povo, um Deus que tudo faz para que o povo tenha salvação, isto é, vida plena.
            Desse jeito Deus é! Assim é a sua política[2]! Permanente ação (serviço) em favor da vida do seu povo – liturgia! A palavra liturgia me faz lembrar que Deus é deste jeito. Então, por que não dizer que liturgia é o próprio jeito de Deus como ação amorosa em favor da humanidade? O específico jeito de ser de Deus é liturgia! Por que não dizer que Deus é a perfeição da liturgia, a própria fonte de toda liturgia?[3]. Esta Liturgia – com maiúsculo! – a gente celebra.
            Interessante que esta aproximação teológica de liturgia bate perfeitamente com a visão profética de culto. Se Deus é assim, então nossa melhor homenagem a Deus é fazer o que ele faz, realizar as suas obras. E as festas, ritos e sacrifícios? São exatamente para manter acesos em nós tanto a memória do operar de Deus como o nosso consequente compromisso com a Liturgia divina, para sermos felizes. Caso contrário, festas, sacrifícios, uso da arca, existência do templo, tornam-se vazios. Deixam de ser um lugar onde o Deus vivo da história se encontra com seu povo.
            O jeito de Deus como perfeição da liturgia tornou-se bem claro para nós na plenitude dos tempos, isto é, com Jesus Cristo e o seu mistério pascal. Deus Pai nos prestou este grande serviço: Ele nos deu o Filho. Aí está: A liturgia do Pai nos oferece o Filho! E o Filho vive a liturgia do Pai entre nós, porque, como sabemos, o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a própria vida para a salvação de muita gente (Mc 10,45). O gesto de Jesus de lavar os pés dos discípulos é um exemplo e um sinal do modo de ser litúrgico de Jesus a ser imitado por todos nós (cf. Jo 13,1-17).
            Mas é sobretudo na paixão, morte e ressurreição de Jesus que aparece de maneira acabada a liturgia divina. Feito radicalmente servo de todos e exaltado como Senhor (cf. Fl 2,5-11), Jesus triunfou sobre o pecado e a morte, ressuscitando-nos para a vida eterna (cf. 1Cor 15,12-28). Imagine que obra ele realizou! A saber, libertou-nos da escravidão do pecado e da morte, fazendo-nos passar para a liberdade dos filhos e filhas reconciliados de Deus. É a máxima obra (liturgia) em favor da vida da humanidade. No mistério pascal, sempre atual porque Cristo está vivo, vislumbramos a maior e mais inigualável liturgia! Pois resolveu-se definitivamente para nós o angustiante problema da morte. Instaurou-se uma nova ordem no mundo e no cosmos, que nós chamamos Reino de Deus: que obra pública grandiosa! Que liturgia! A maior de todas!... Esta Liturgia a gente celebra.
            Então, por que não dizer que liturgia é a própria vida de Jesus, vivida no amor até as últimas consequências em favor do Reino da vida? Presença do jeito litúrgico de Deus entre nós. E daí, por que não dizer que em Jesus vemos a perfeição da liturgia divina? Por que não dizer que em seu mistério pascal se nos dá a fonte da liturgia? Por isso, com a carta aos Hebreus podemos proclamar que Jesus Cristo é o liturgo por excelência (Hb 8,2.6; 10,11-12). Esta Liturgia a gente celebra.
            Ora, de tudo o que vimos até aqui, você já pode deduzir o que pode significar celebrar a Liturgia, qual o sentido de uma celebração litúrgica cristã. A palavra celebrar vem do adjetivo célebre! Você sabe o que é célebre? Quer dizer importante, inesquecível, irrenunciável, famoso, conhecido. Transformando o adjetivo célebre em verbo ativo, temos então celebrar. Celebrar, portanto, significa tornar célebre, fazer memória de algo muito importante. Algo muito importante e decisivo se torna presente pela memória que dele fazemos. E como se dá isso? Através de todos os nossos sentidos, usando palavras, símbolos, expressões corporais, gestos e ações simbólicas, música, etc.
            E celebrar a Liturgia? Celebrar a Liturgia significa: Tornar célebre, fazer solene memória da Liturgia divina sempre viva e atual no meio de nós. Basta lembrar que o próprio Cristo, na última ceia, nos deu esta ordem: Façam isto em memória de mim (Cf. Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). Quer dizer: Por esta ação eucarística, vocês vão tornar célebre (sempre atual) a liturgia eternamente viva que vocês estão percebendo em mim e em vocês mesmos, reunidos em meu nome. O memorial da Liturgia divina se dá também nos outros sacramentos, nos sacramentais, no ofício divino, nas celebrações da Palavra e em tantas outras celebrações em nome do Senhor. Numa palavra: A Liturgia divina se comunica a nós pela memória que dela fazemos. E como isto se dá? De maneira sensível, a saber, em comunhão com todos os nossos sentidos, valorizando as expressões simbólicas e culturais da comunidade humana que celebra.
            Daí segue que celebrar a Liturgia hoje significa: no Espírito que nos foi dado, fazer experiência comunitária da presença viva da Liturgia divina (mistério pascal – da ação da Trindade) na celebração litúrgica[4]. Na ação celebrativa que realizamos em nome do Senhor, fazemos a experiência da presença da Liturgia divina como núcleo do evangelho fermentando a nossa História, e que nos convoca a um renovado compromisso com o Reino.
            Por isso, chamo a Liturgia celebrada de a melhor evangelização, pois ali é o próprio Senhor vivo e ressuscitado – o Libertador: Liturgia viva! – quem fala, ensina, comunica-se com seu povo e o liberta. Explicitar, na celebração litúrgica, esta presença viva da Liturgia divina comunicando seu amor, da melhor maneira possível a partir das nossas culturas, eis um grande desafio. Vice-versa: A Liturgia divina deseja se comunicar – se dar! – a nós de maneira mais humana e comprometedora possível, como outrora na forma cultural judaica, no judeu Jesus de Nazaré, e agora em forma litúrgico-celebrativa também brasileira. O desafio está em discernirmos uma forma litúrgico-celebrativa tal que nela possamos realmente, como comunidade cristã culturalmente localizada, sentir a presença viva e atuante da Páscoa de Jesus Cristo (Liturgia!), da Política de Deus, ontem, hoje e sempre.

PERGUNTAS PARA REFLEXÃO PESSOAL E EM GRUPOS:

1) O que nos chama a atenção neste artigo?
2) Qual é a definição mais apropriada de Liturgia para os dias atuais?
3) Porque a Liturgia é a melhor evangelização?





[1] Interessante que o próprio apóstolo Paulo e a carta aos Hebreus usam o termo liturgia neste sentido de serviço em favor dos outros. Epafrodito presta serviços aos cristãos de Jerusalém, recolhendo esmolas para eles (2Cor 9,12). Os anjos servem a Deus em favor dos seres humanos (Hb 1,7.14).
[2] Entendo política aqui como a arte de tornar e manter humana a vida (cf. COX, Harvey. A cidade de homem. Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 278, 1968). Ruben Alves a define como a arte de fazer deste mundo um paraíso, onde todos fraternalmente possam ter vez e voz (cf. Vídeo sobre O Símbolo, produzido pelo Colégio Arquidiocesano de São Paulo).
[3] Cf. J. Corbon, Liturgia de Fonte, Paulinas, São Paulo, 1991.
[4] O grande teólogo liturgista S. Marsili chama a liturgia celebrada de momento histórico da salvação (cf. Anámnesis 1: A liturgia, momento histórico da salvação, Paulinas, São Paulo, 1987, p. 37ss) e de primária experiência espiritual cristã (título do seu artigo, in: T. Goffi – Secondin (Org.), Problemi e prospettive di Spiritualità, Queriniana, Brescia, 1983, p. 249-276). Note-se que o atual Catecismo da Igreja Católica intitula a Liturgia como obra da Santíssima Trindade (cf. edição conjunta Vozes/Paulinas/Loyola/Ave-Maria, Petrópolis/São Paulo, 1993, p. 265).

quarta-feira, 22 de março de 2017

PARTILHA DA PALAVRA - HOMILIA



PARTILHA DA PALAVRA – HOMILIA

Emerson Sbardelotti*

            Tenho a oportunidade de ser convidado para fazer a Partilha da Palavra – Homilia em muitas comunidades eclesiais de base e paróquias, e sempre que isso acontece, com muita humildade e alegria, me preparo com muita antecedência para dar o melhor de mim, pois entendo que uma Partilha bem feita produz bons frutos para aquela comunidade reunida em torno da Palavra de Deus. Tomo o cuidado de conhecer a realidade daquela comunidade, daquela paróquia, suas vitórias, suas derrotas, alegrias e tristezas. Procuro sempre falar de forma simples, independente da instrução escolar da assembleia.
            Nesta preparação, além da Bíblia de Jerusalém, do Peregrino, TEB e a Pastoral, utilizo as reflexões da Revista Vida Pastoral, muitos livros com comentários bíblicos e o livro Roteiros Homiléticos, do padre José Bortolini.
            No caminho para o local da celebração agradeço a Deus por estar servindo ao Povo enquanto homiliasta, enquanto ministro da Palavra, e peço a Ele para falar por mim enquanto estiver conversando com as famílias cristãs ali reunidas.
            Muitas pessoas me perguntam: como fazer uma boa partilha da Palavra – Homilia? Quanto tempo deve ter? Digo sempre a anedota que D. Pedro Casaldáliga, um dia em sua casa, em São Félix do Araguaia-MT, quando eu lhe perguntei quanto tempo deve demorar uma homilia? Pedro me disse: “Os 5 primeiros minutos é Deus falando por você. De 5 a 10 minutos é você falando para a assembleia. Dos 10 minutos em diante é o espírito de porco...”. Ri muito com ele neste dia e entendi a mensagem.
Acredito que o segredo para uma boa Partilha está na preparação que você faz para realizá-la.
            Por estar sempre me preparando com antecedência, observo sempre aquela leitura que possa ser um pouco mais complicada e a melhor forma de explicá-la à assembleia me detendo um pouco mais nela, mas não deixo de falar das outras fazendo a ponte com a realidade da comunidade. O Evangelho do dia sempre tem um maior destaque!
            Para ajudar meus amigos e amigas e a você que me curte e me segue nas redes sociais eu escolhi alguns trechos de livros, com pessoas que são especialistas em Liturgia e que de forma simples podem nos ajudar a entender um pouco melhor a arte de fazer a Partilha da Palavra – Homilia.
            É apenas um aperitivo o texto que segue. Haverá algumas repetições, no geral, as informações irão lhe ajudar a entender um pouco melhor a Partilha da Palavra – Homilia. Uma dica valiosa: busque ler os livros citados nas notas de rodapé do texto. No final do texto há algumas questões para reflexão pessoal ou em grupos.
            Boa leitura! E se gostar pode compartilhar com todos os seus contatos. Havendo dúvidas entre em contato.
            Que o Moreno de Nazaré sempre lhe abençoe e lhe inspire na defesa da Vida!


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Maria de Lourdes Zavares diz que “a Liturgia da Palavra é diálogo amoroso e comprometedor entre Deus e seu povo, congregado em Cristo e animado pelo seu Espírito.
            A homilia, como parte integrante deste diálogo, merece nossa atenção.
            Homilia significa conversa familiar. Um diálogo fraterno, continuando o assunto da conversa que Deus vem fazendo conosco através das leituras e dos fatos da vida. Ela tece harmoniosamente uma relação entre a Bíblia, a celebração e a vida. Estabelece um elo entre a proposta de Deus e a resposta da assembleia.
            A homilia é ação simbólica assim como cada momento da Liturgia da Palavra.
            Homilia não pode ser confundida com sermão, discurso temático ou pregação com caráter moralizante. Não é estudo bíblico ou catequético nem reflexão e, muito menos, deve ser substituída por desabafos pessoais de quem a faz.
            Não basta simplesmente explicar os textos bíblicos. É preciso interpretá-los a partir da realidade, atualizando-os na vida concreta da comunidade celebrante, tendo como referência o mistério de Cristo. Ele faz arder os corações, abrindo-os à conversão, à transformação pessoal, comunitária e social”[1].

Ione Buyst nos diz que “a Palavra de Deus é sempre viva e atual. Traz uma boa notícia, um conforto, um alento, alegria, esperança, e também um apelo, um chamado à conversão e à missão, em cada momento de nossa vida. Por isso, as leituras bíblicas são meditadas, comentadas, confrontadas com os fatos de nossa vida pessoal, comunitária, social. Relacionar Bíblia e Vida é tarefa da homilia, numa conversa familiar, de irmãs e irmãos prestando atenção àquilo que o Senhor nos tem a dizer.
            É tarefa ainda da homilia de nos preparar para a segunda parte da celebração, ligando as leituras bíblicas com o mistério celebrado na Eucaristia ou na louvação.
            A homilia é da responsabilidade de quem preside. Às vezes é conduzida em forma de uma conversa comunitária, deixando aberta a participação do povo.
            Existe a possibilidade de se retomar a temática das leituras bíblicas e da homilia, com um canto após a homilia”[2].

            Maria de Lourdes Zavarez afirma que “cremos que é o próprio Cristo que fala, quando na Liturgia, são lidas e explicadas as Escrituras. E a homilia é a ação do seu Espírito.
            Ele abre a comunidade para compreender, saborear e aceitar a Palavra proclamada, perceber o sentido dos acontecimentos à luz da Páscoa, renovar em ação de graças sua fé, retomar os motivos de sua esperança e se comprometer com a fraternidade, a justiça e o mandamento do amor.
            Esta ação não se dá automaticamente. É trabalho conjunto do Espírito e da comunidade celebrante.
            Além de fazer a ligação entre os textos bíblicos e a vida, é função da homilia abrir e conduzir a assembleia para dentro do mistério da salvação, acontecendo no momento celebrativo. É sua dimensão mistagógica nem sempre levada em conta em nossas celebrações.
            E como fazer isto? Primeiramente, evocando as ações libertadoras que Deus realizou e realiza por nós em Jesus. Ele é o grande motivo da ação de graças que a comunidade faz a seguir na oração eucarística. E, depois, despertando na assembleia a atitude de oferenda e comunhão com Cristo ao Pai.
            A pessoa responsável pela homilia é normalmente quem preside, que poderá envolver outras pessoas e até toda a assembleia na partilha da Palavra. É uma tarefa sagrada. Daí decorre sua responsabilidade de preparar-se bem durante a semana.
            Neste sentido, muito tem ajudado um jeito antigo de ler a Bíblia, redescoberto e utilizado recentemente, por muitas comunidades cristãs, a leitura orante, ou lectio divina. Esse método consta de quatro momentos ou passos:
a)     A leitura aprofundada e cuidadosa dos textos bíblicos indicados, ou pelo menos do evangelho;
b)     A meditação, ligando os textos bíblicos com nossa vida, com a realidade que nos cerca;
c)      A oração brotando desta meditação: “O que esta Palavra nos leva a dizer a Deus?”;
d)     A contemplação, momento de entrar em comunhão íntima, deixando-nos conduzir pela ação amorosa do Senhor.
Para manter a dimensão orante, dialogal, profética e mistagógica, três perguntas poderão orientar e facilitar a participação da assembleia nesta conversa familiar, que é homilia:
a)     Qual a boa notícia de Deus para nós hoje?
b)     Qual o apelo que Ele nos faz?
c)      Que resposta daremos a esta Palavra na celebração e na vida?
O silêncio torna-se indispensável no final da homilia. Assim a resposta à Palavra, a ser dada pela comunidade, na celebração e na vida, ganhará autenticidade, realizada primeiro no íntimo de cada pessoa, pela ação do Espírito”[3].

            Ione Buyst afirma que “é preciso fazer com que Cristo, o Senhor, possa falar ao coração e à mente de seu povo reunido, dentro da realidade de sua vida cotidiana, de sua cultura, de sua história.
            Normalmente, a homilia é tarefa dos padres; faz parte de seu ministério. Porém, todos nós sabemos que mais ou menos 70% das comunidades, que se reúnem aos domingos, não podem contar todos os domingos com um ministro ordenado. Mas nem por isso as comunidades ficam sem alguém que faça a partilha do pão indispensável da Palavra de Deus. Por toda parte, o Espírito Santo foi suscitando e a Igreja foi organizando e preparando ministros da Palavra de Deus, homens e mulheres da comunidade que se colocam à disposição do Senhor e dos irmãos e irmãs. Entre outras tarefas, cabe-lhes fazer a homilia.
            Quem já fez homilia sabe que se trata de uma tarefa nada fácil.
            Qual a maior diferença entre homilia e sermão? No sermão falava-se de qualquer assunto, não necessariamente ligado com os textos sagrados. E também não fazia parte integrante da Liturgia: interrompia-se a missa para fazer o sermão e o padre até tirava a casula para subir ao púlpito e fazia o sinal da cruz no início e no fim. Então, o sermão era como um corte no meio da missa, uma interpolação.
            Somente na década de 1960, com a renovação do Concílio Vaticano II, é que a homilia foi reintroduzida na prática da Igreja. E assim, aos poucos, foi recuperando o lugar que jamais deveria ter perdido.
            Diz o Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia (1963), SC, n. 52:
·         A homilia é parte da liturgia;
·         Expõe os mistérios da fé e as normas de vida cristã, no decorrer do Ano Litúrgico;
·         Faz-se sobre o texto sagrado;
·         Não deve ser omitida sem grave causa nas missas de domingo e dias de guarda.
A Introdução ao Elenco das Leituras da Missa (IELM, 1981) no n. 24, retoma estes dados e acrescenta mais um elemento importante:
            Cristo está sempre presente e operante na pregação da Igreja.
            Com isso, retoma um ensinamento do papa Paulo VI em sua encíclica Mysterium Fidei (1965), completando o texto da SC, n. 7 que fala da presença de Cristo quando se leem as Sagradas Escrituras na comunidade reunida. Ou seja, também na homilia, Cristo está presente e nos dá sua Palavra.
            Portanto, a homilia é, juntamente com toda a Liturgia, uma ação sacramental: pelas palavras humanas (ou, às vezes, apesar delas!), Deus está presente, nos atinge com sua Palavra e nos transforma”[4].
           
            Luis Maldonado diz que “a homilia é a pregação cristã que ocorre no âmbito de uma celebração litúrgica. São duas as suas características: ser pregação e ser pregação litúrgica.
            Como pregação deve corresponder às características fundamentais desta tarefa pastoral básica na Igreja, que podemos também denominar serviço à Palavra de Deus.
            Como pregação litúrgica reunirá e refletirá os traços e elementos essenciais de toda liturgia. Desta maneira, não há de ser corpo estranho dentro da celebração, nela inserido apenas de modo extrínseco, mais ou menos forçado, porém, enxertar-se-á harmoniosamente em seu contexto como etapa mais de fluência ritual e como ingrediente perfeitamente homogêneo dentro do conjunto do universo festivo celebrativo”[5].

            Yone Buyst diz que a “a liturgia da Palavra é memória de Jesus, diálogo da Aliança entre Deus e o seu povo em clima orante, instrução do povo de Deus, confrontando textos bíblicos e vida pessoal e social, exortação e animação para uma vida de acordo com o Evangelho de Jesus e também intercessão para apressar a vinda do Reino de Deus em nossa realidade.
            Cabe à presidência, sobretudo, a responsabilidade pela homilia, partilha da Palavra. É o momento da interpretação das leituras bíblicas ouvidas (incluindo o salmo), relacionando-as com a vida e com a liturgia que estamos celebrando. Ou seja, trata-se de fazer uma ‘leitura espiritual’ das escrituras e da vida. Para muitos, a celebração dominical é a única escola, o único fórum para tomar conhecimento dos valores cristãos, formar uma opinião sobre os acontecimentos da vida pessoal, comunitária e social. Necessitamos de um espaço onde possamos avaliar a opinião pública e confrontar as ideias divulgadas por jornais, rádio e televisão. E a melhor maneira de fazer isso é aproveitar os fatos do momento, comentados por todos, e abordá-los na homilia à luz das sagradas escrituras.
            Quem faz a homilia ou partilha da Palavra não pode se esquivar dessa tarefa formativa da comunidade ante a atualidade.
            O homiliasta é um pedagogo na fé: cria em nós a atitude espiritual própria de cada tempo e festa litúrgica, para que possamos assimilar em nossa vida, em nossas atitudes, os vários mistérios de Cristo; ajuda-nos a crescer espiritualmente para ‘que todos juntos nos encontremos unidos na mesma fé e no conhecimento do Filho de Deus, para chegarmos a ser o homem perfeito que, na maturidade do seu desenvolvimento, é a plenitude de Cristo’ (Ef 4,13).
            A homilia poderá ser feita de forma comunitária, como uma conversa, um diálogo, pois o Espírito Santo está presente e fala à comunidade como um todo. Mas quem preside não pode deixar a conversa correr solta: deve iniciar, conduzir a conversa, dar e retomar a palavra, assegurar “o fio da meada”, garantir que o Senhor possa dizer sua Palavra à comunidade reunida, ligar a liturgia da Palavra com a vida e com a liturgia eucarística. É oportuno deixar um longo silêncio no final da homilia para que a Palavra ouvida possa ecoar no fundo de nosso coração e dar frutos[6].

              Segundo a CNBB: “é função da homilia atualizar a Palavra de Deus, fazendo a ligação da Palavra escutada nas leituras com a vida e a celebração. É importante que se procure mostrar a realização da Palavra de Deus na própria celebração da Ceia do Senhor. A homilia procura despertar as atitudes de ação de graças, de sacrifício, de conversão e de compromisso, que encontram sua densidade sacramental máxima na Liturgia eucarística.
            Os fiéis, congregados para formar uma Igreja pascal, a celebrar a festa do Senhor presente no meio deles, esperam muito dessa pregação e dela poderão tirar fruto abundante, contanto que ela seja simples, clara, direta e adaptada, profundamente aderente ao ensinamento evangélico e fiel ao magistério da Igreja. Para isso é necessário que a homilia seja bem preparada, relativamente curta e procure prender a atenção dos fiéis”[7].

            A CNBB afirma que “a homilia é também parte integrante da Liturgia da Palavra. Ela atualiza a Palavra de Deus, de modo a interpelar a realidade da vida pessoal e comunitária, fazendo perceber o sentido dos acontecimentos, à luz do plano de Deus, tendo como referencial a pessoa, a vida, a missão e o mistério pascal de Jesus Cristo. A explicação viva da Palavra de Deus motiva a assembleia a participar na oração de louvor e na vivência da caridade, buscando realizar a ligação entre a Palavra de Deus e a vida, com mensagem que brota dos textos em conjunto e em harmonia entre si, atingindo a problemática do dia a dia da comunidade.
            Quando oportuno, convém que a homilia ou a partilha da Palavra desperte a participação ativa da assembleia, por meio do diálogo, aclamações, gestos, refrães apropriados. Segundo as circunstâncias, quem preside convida os presentes a dar depoimentos, contar fatos da vida, expressar suas reflexões, sugerir aplicações concretas da Palavra de Deus. Poderá haver troca de ideias em grupo, seguida de uma breve partilha comum e a complementação de quem preside”[8].

            Nosso querido Papa Francisco nos diz assim: “Consideremos agora a pregação dentro da Liturgia, que requer uma séria avaliação por parte dos Pastores. Deter-me-ei particularmente, e até com certa meticulosidade, na homilia e sua preparação, porque são muitas as reclamações relacionadas a este ministério importante, e não podemos fechar os olhos. A homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De fato, sabemos que os fiéis lhe dão muita importância; e, muitas vezes, tanto eles como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e outros a pregar. É triste que assim seja. A homilia pode ser, realmente uma experiência intensa e feliz do Espírito, um encontro consolador com a Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento.
            Renovemos a nossa confiança na pregação, que se funda na convicção de que é Deus que deseja alcançar os outros por meio do pregador e de que Ele mostra o seu poder pela palavra humana. São Paulo fala vigorosamente sobre a necessidade de pregar, porque o Senhor quis chegar aos outros por meio também da nossa palavra (cf. Rm 10, 14-17). Com a palavra, Nosso Senhor conquistou o coração das pessoas. De todas as partes, vinham para ouvi-Lo (cf. Mc 1,45). Ficavam maravilhados, ‘bebendo’ os seus ensinamentos (cf. Mc 6,2). Sentiam que lhes falava como quem tem autoridade (cf. Mc 1,27). E os Apóstolos, que Jesus estabelecera ‘para estarem com Ele e para os enviar a pregar’ (Mc 3,14), atraíram para o seio da Igreja todos os povos com a palavra (cf. Mc 16, 15.20).
            Agora é oportuno recordar que ‘a proclamação litúrgica da Palavra de Deus, principalmente no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um momento de meditação e de catequese, como, sobretudo, o diálogo de Deus com o seu povo, no qual se proclamam as maravilhas da salvação e se propõem continuamente as exigências da Aliança'. A homilia possui um valor especial derivado do seu contexto eucarístico, que supera toda a catequese por ser o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da comunhão sacramental. A homilia é um retomar este diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer o coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo de deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde dar fruto.
            A homilia não pode ser um espetáculo de divertimento, não corresponde à lógica dos recursos midiáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um gênero peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro de uma celebração litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter vivo o interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais importante que a celebração da fé. Se a homilia se prolonga demasiado, prejudica duas características da celebração litúrgica: a harmonia entre as suas partes e o seu ritmo. Quando a pregação se realiza no contexto da Liturgia, incorpora-se como parte da oferenda que se entrega ao Pai e como mediação da graça que cristo derrama na celebração. Este mesmo contexto exige que a pregação oriente a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida. Isso requer que a palavra do pregador não ocupe um lugar excessivo, para que o Senhor brilhe mais que o ministro”[9].

            Alguns lembretes para o momento de fazer a homilia:
1)       Lugar da homilia: na cadeira da presidência (de pé ou sentado), ou na estante da Palavra (cf. IELM, n. 26).
2)     Duração: “Nem muito longa e nem muito curta – e que se leve em consideração todos os presentes, inclusive as crianças e o povo, de modo geral as pessoas simples”, diz a IELM, n. 24.
3)      Preparar bem os equipamentos de som, saber falar bem, ter boa dicção.
4)     Cuidar da postura, movimentos, expressão corporal (na medida certa e na hora certa). Semblante sereno; fazer transparecer a esperança.
5)     Comunicação: passar um bom conteúdo em pouco tempo. Dar uma palavra pessoal, que venha da própria experiência ou da comunidade. Manter a dinâmica dialogal de encontro entre Deus e a comunidade.
6)     Pode ser interessante usar o livro (Bíblia ou Lecionário) durante a homilia, referindo-se sempre às leituras proclamadas.
7)     Ser criativo/a. Usar símbolos: dos textos bíblicos, da liturgia, da vida cotidiana da comunidade.
8)     Assumir e incorporar as surpresas: intervenção da comunidade, fatos acontecidos na véspera, por exemplo.
9)     No final, deixar um momento de silêncio, para que a Palavra seja acolhida interiormente e se prepare uma resposta, por meio da oração (cf. IELM, n. 28).
10)  Outra possibilidade: antes de iniciar a homilia propriamente dita, deixar um momento para que os participantes repitam uma ou outra frase dos textos bíblicos que os marcou durante a proclamação.
11)    De vez em quando, pensar num breve refrão meditativo, relacionado com a homilia; repeti-lo várias vezes no final da homilia”[10].

Questões para reflexão pessoal ou em grupos

1)       O que mais chamou atenção na leitura do texto? Explique.
2)     O que é a Partilha da Palavra – Homilia? Como ela está sendo realizada na comunidade?
3)      Como melhorar a formação dos homiliastas e ministros da Palavra?


Bibliografia

BUYST, Ione. A Palavra de Deus na liturgia. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 2002.

BUYST, Ione. Homilia, partilha da Palavra. São Paulo: Paulinas, 2001.

BUYST, Ione. Presidir a celebração do dia do Senhor. São Paulo: Paulinas, 2004.

CNBB. Animação da Vida Litúrgica no Brasil – elementos de Pastoral Litúrgica. 16.ed. São Paulo: Paulinas, 2001.

CNBB. Liturgia em Mutirão – subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007.

CNBB. Orientações para a Celebração da Palavra de Deus. 9.ed. São Paulo: Paulinas, 1999.

FRANCISCO. Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. 5.ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola, 2015.

MALDONADO, Luis. A Homilia – pregação, liturgia, comunidade. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2002.








* Mestre em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Curriculum Lattes: http://lattes.cnpq.br/9125123556567955. Correio eletrônico: sbardelottiemerson@gmail.com. Autor de Espiritualidade da Libertação Juvenil. São Leopoldo: CEBI, 2015.

[1] CNBB. Liturgia em Mutirão – subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007, p. 113-114.

[2] BUYST, Ione. A Palavra de Deus na liturgia. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 2002, p. 37-38.

[3] CNBB. Liturgia em Mutirão – subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007, p. 115-116.

[4] BUYST, Ione. Homilia, partilha da Palavra. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 5-11.

[5] MALDONADO, Luis. A Homilia – pregação, liturgia, comunidade. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2002, p. 6.

[6] BUYST, Ione. Presidir a celebração do dia do Senhor. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 42-45.

[7] CNBB. Animação da Vida Litúrgica no Brasil – elementos de Pastoral Litúrgica. 16.ed. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 96-97.

[8] CNBB. Orientações para a Celebração da Palavra de Deus. 9.ed. São Paulo: Paulinas, 1999, p. 34-35.

[9] FRANCISCO. Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. 5.ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola, 2015, p. 84-86.

[10] BUYST, Ione. Homilia, partilha da Palavra. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 44-47.


Arte-Vida de Luís Henrique (MG).